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Por Rute Linhares em 25-08-2026

A IA já impulsiona o crescimento do eCommerce: as principais conclusões do caso Shopify

A IA já impulsiona o crescimento do eCommerce: as principais conclusões do caso Shopify
Rute Linhares
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Publicado porRute Linhares
Os resultados mais recentes da Shopify mostram que a inteligência artificial está a deixar de ser apenas uma ferramenta de apoio para se tornar num novo canal de aquisição, descoberta e vendas no eCommerce.

Publicado em25 agosto 20265Visualizações0 Avaliações1 Comentário

A inteligência artificial está a passar rapidamente de tecnologia experimental para uma componente cada vez mais relevante no comércio eletrónico. Os resultados apresentados pela Shopify são um bom exemplo desta evolução: a empresa continua a crescer a um ritmo elevado e identifica a IA como um dos fatores que estão a aumentar as capacidades dos seus comerciantes.

No segundo trimestre, a Shopify ultrapassou os 115 mil milhões de dólares em volume bruto de mercadorias vendidas, o chamado GMV, representando um crescimento homólogo de 32%. Ao mesmo tempo, as receitas aumentaram 34%, atingindo os 3.583 milhões de dólares. Para além da dimensão destes números, importa perceber quais os fatores que estão a contribuir para este crescimento e o que as marcas que vendem online podem retirar desta evolução.

A inteligência artificial entra numa nova fase do eCommerce

Nos últimos anos, grande parte da discussão em torno da inteligência artificial aplicada ao comércio eletrónico esteve centrada na geração de textos, imagens, descrições de produtos, apoio ao cliente ou automatização de determinadas tarefas. No entanto, a evolução registada pela Shopify aponta para uma transformação bastante mais profunda.

A IA começa agora a intervir diretamente na forma como os consumidores descobrem produtos, comparam alternativas e chegam até às lojas online. Isto significa que deixa de ser vista exclusivamente como uma ferramenta interna de produtividade e começa também a assumir-se como um potencial canal de aquisição de clientes.

A Shopify começou, por exemplo, a disponibilizar ferramentas que permitem identificar compras provenientes de assistentes como ChatGPT, Copilot ou Google AI Mode. Esta capacidade é particularmente relevante porque permite aos comerciantes compreender melhor um tipo de tráfego que, até recentemente, era difícil de distinguir através das ferramentas tradicionais de analítica.

Entramos assim no território do agentic commerce, um modelo em que assistentes e agentes baseados em inteligência artificial podem participar ativamente na pesquisa, seleção, comparação e até na compra de produtos.

Sidekick e a IA aplicada à gestão diária das lojas

Outro indicador desta transformação é o crescimento do Sidekick, o assistente de inteligência artificial integrado na Shopify. De acordo com os dados divulgados pela empresa, o número de utilizadores ativos diários desta ferramenta multiplicou-se por 3,6 ao longo do último ano.

O Sidekick permite interagir com diferentes áreas de uma loja recorrendo a linguagem natural. Um comerciante pode utilizar este tipo de solução para analisar informação, obter recomendações, preparar conteúdos, identificar oportunidades de otimização SEO ou automatizar processos que anteriormente exigiam mais tempo ou conhecimentos técnicos específicos.

O dado mais interessante não é apenas o aumento do número de utilizadores, mas a alteração de comportamento que representa. A interface tradicional baseada em menus, relatórios e configurações começa a conviver com uma nova forma de gerir tecnologia: explicar um objetivo a um assistente e utilizar a inteligência artificial para acelerar a sua concretização.

Para as empresas, esta abordagem pode reduzir a barreira de acesso a várias capacidades digitais. No entanto, não elimina a necessidade de estratégia. Pelo contrário, quanto mais fácil se torna gerar conteúdos, análises e automatizações, mais importante é definir objetivos claros, assegurar a qualidade dos dados e medir o impacto real das diferentes iniciativas.

A IA começa a gerar tráfego e encomendas

Um dos dados mais significativos apresentados pela Shopify está diretamente relacionado com a aquisição de tráfego. Segundo a informação da empresa, o tráfego enviado para as lojas dos seus comerciantes a partir de pesquisas realizadas através de inteligência artificial triplicou no último ano. O número de encomendas originadas nestes ambientes também triplicou.

Embora este canal ainda deva ser analisado em conjunto com motores de pesquisa, redes sociais, publicidade digital, marketplaces, email marketing e tráfego direto, a sua evolução é difícil de ignorar. Para uma loja online, a questão já não passa apenas por saber como aparecer no Google. Passa também por perceber como garantir que um assistente de inteligência artificial consegue compreender, selecionar e recomendar corretamente os seus produtos.

Esta mudança poderá ter consequências importantes nas estratégias de SEO e tráfego orgânico. A visibilidade digital continuará dependente da qualidade do conteúdo, da autoridade da marca e de uma boa base técnica, mas será progressivamente mais importante estruturar a informação de modo a que possa ser interpretada corretamente por novos sistemas de pesquisa e recomendação.

Os dados de produto tornam-se numa vantagem competitiva

A estratégia da Shopify em torno do seu catálogo ajuda a compreender outro dos grandes desafios associados ao comércio mediado por inteligência artificial. O Shopify Catalog já estrutura informação relativa a mais de mil milhões de produtos, incluindo preços, variantes, disponibilidade e dados de entrega.

A importância desta infraestrutura está no facto de um agente de inteligência artificial necessitar de dados claros, consistentes e atualizados para tomar boas decisões. Quando tem acesso a informação estruturada, consegue perceber melhor que produto está disponível, qual a variante adequada a uma determinada necessidade, qual o respetivo preço e em quanto tempo poderá ser entregue.

De acordo com a Shopify, as pesquisas realizadas através de inteligência artificial apresentam uma taxa de conversão duas vezes superior quando os assistentes conseguem aceder a informação estruturada, em vez de terem de interpretar os dados recorrendo a scraping das páginas de uma loja.

Este dado reforça uma ideia fundamental para qualquer projeto de comércio eletrónico: a qualidade do catálogo já não influencia apenas a experiência do utilizador dentro da loja online. Pode também determinar a capacidade de motores de pesquisa, plataformas externas e agentes inteligentes compreenderem e recomendarem os produtos.

Campos incompletos, variantes mal configuradas, preços inconsistentes, informação de stock desatualizada ou uma arquitetura técnica pouco eficiente podem transformar-se gradualmente em obstáculos à visibilidade e à conversão.

Uma oportunidade especialmente relevante para produtos de nicho

Outro dado particularmente interessante é que 75% das encomendas atribuídas pela Shopify à inteligência artificial são provenientes de categorias que se encontram fora das 100 mais populares da plataforma.

Se esta tendência continuar, os assistentes de IA poderão tornar-se num mecanismo de descoberta especialmente importante para produtos e marcas de nicho. Numa pesquisa tradicional, os resultados são muitas vezes influenciados pela autoridade dos domínios, popularidade, investimento publicitário ou posicionamento já conquistado. Um assistente pode introduzir novos critérios e procurar uma solução particularmente ajustada à intenção expressa pelo utilizador.

Isto poderá criar novas oportunidades para marcas especializadas que possuem produtos competitivos, mas que têm dificuldade em alcançar visibilidade perante operadores de maior dimensão.

Para aproveitar estas oportunidades, será necessário trabalhar não apenas a comunicação e o posicionamento da marca, mas também a arquitetura tecnológica do negócio. Uma plataforma de eCommerce preparada para crescer pode facilitar a integração de catálogos, sistemas de gestão, fontes de dados, aplicações externas e novos canais de interação com os consumidores.

Shopify Payments reforça o modelo de plataforma integrada

A inteligência artificial não é o único fator relevante nos resultados da Shopify. O Shopify Payments continua também a aumentar a sua importância no ecossistema da empresa. Durante o trimestre, processou aproximadamente 78 mil milhões de dólares, o equivalente a 68% do GMV total da plataforma.

Isto significa que mais de dois terços do volume comercial gerido pela Shopify passa atualmente pela sua própria infraestrutura de pagamentos. A evolução demonstra como a empresa está a passar de uma plataforma essencialmente destinada à criação de lojas online para um ecossistema tecnológico que pretende cobrir uma parte cada vez maior das operações de comércio eletrónico.

Catálogo, pagamentos, analítica, automatização, inteligência artificial e canais de venda passam assim a fazer parte de uma infraestrutura progressivamente mais integrada. Para os comerciantes, esta integração pode reduzir a complexidade operacional, mas torna igualmente importante avaliar fatores como custos, flexibilidade, dependência tecnológica, possibilidades de integração e necessidades futuras do negócio.

O que devem fazer agora as lojas online?

O aparecimento de um novo canal de aquisição não significa abandonar os anteriores. SEO, campanhas de pesquisa, redes sociais, marketplaces, email marketing e estratégias de fidelização continuarão a desempenhar um papel central. O que está a mudar é o contexto competitivo e tecnológico em que todos estes canais operam.

As lojas online devem começar a analisar a forma como os seus produtos estão estruturados, que informação pode ser interpretada por sistemas automatizados, como são atualizados preços e stocks e até que ponto a sua infraestrutura tecnológica está preparada para comunicar com novos canais.

Também será importante adaptar a analítica. Se ferramentas como ChatGPT, Copilot, Google AI Mode e outros assistentes começarem a gerar cada vez mais visitas e conversões, as empresas terão de identificar estas interações, compreender o seu percurso, atribuir corretamente as vendas e analisar que conteúdos e produtos obtêm melhores resultados nestes novos ambientes.

Mais do que implementar ferramentas isoladas, será importante desenvolver uma abordagem coordenada. Uma estratégia digital que ligue objetivos de negócio, tecnologia, dados, marketing e experiência do utilizador poderá tornar-se decisiva para aproveitar o verdadeiro potencial da inteligência artificial no eCommerce.

O eCommerce prepara-se para consumidores e agentes inteligentes

Os resultados da Shopify mostram que a inteligência artificial está a começar a produzir efeitos mensuráveis no comércio eletrónico. Já existe tráfego proveniente de assistentes, já são registadas encomendas originadas nestes ambientes e as grandes plataformas estão a desenvolver infraestruturas especificamente concebidas para suportar esta nova forma de pesquisar e comprar.

Estamos provavelmente ainda numa fase inicial desta transformação. Os hábitos dos consumidores, os modelos de atribuição e as capacidades dos agentes de inteligência artificial continuarão a evoluir. No entanto, existe já uma conclusão prática para as marcas: preparar uma loja online para a IA não significa apenas instalar um assistente ou automatizar a criação de descrições de produtos.

Significa garantir dados estruturados, uma arquitetura tecnológica sólida, informação de produto rigorosa, conteúdos relevantes e sistemas capazes de comunicar com novos canais e plataformas.

O cliente final de uma loja online continuará a ser uma pessoa. A diferença é que, cada vez mais, essa pessoa poderá recorrer a um agente de inteligência artificial para pesquisar, comparar e selecionar produtos em seu nome. As marcas que facilitarem esse processo estarão melhor preparadas para competir na próxima fase do comércio eletrónico.

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1 Comentários
  • Ana Martins
    Ana Martins
    04-09-2026

    O artigo aborda de forma interessante a evolução da IA no eCommerce, sobretudo ao destacar que 75% das encomendas por IA na Shopify são de nichos fora do top 100. Concordo com a ideia de que dados estruturados e catálogos bem organizados se tornam agora cruciais, mas creio que se subestima o risco de dependência tecnológica e a perda de autonomia das lojas face a grandes plataformas.

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