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Por Rute Linhares em 27-07-2026

Como a inteligência artificial levou a Shopify a regressar ao código simples

Como a inteligência artificial levou a Shopify a regressar ao código simples
Rute Linhares
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Publicado porRute Linhares
A nova arquitetura de temas da Shopify mostra que agentes de inteligência artificial e programadores procuram exatamente o mesmo: código legível, contratos claros e feedback útil.

Publicado em27 julho 202615Visualizações0 Avaliações0 Comentários

Durante anos, a evolução das plataformas de comércio eletrónico pareceu seguir uma regra simples: quanto mais possibilidades de personalização fossem disponibilizadas, melhor seria a experiência para os utilizadores. No entanto, a Shopify está agora a demonstrar que a flexibilidade sem limites pode ter um custo elevado, sobretudo quando transforma código relativamente simples em estruturas difíceis de compreender, manter e modificar.

A empresa está a preparar uma nova geração de temas para lojas online, concebida para substituir progressivamente o Horizon, o atual tema-base da plataforma. A principal diferença não está apenas na aparência das lojas, mas na forma como o respetivo código é organizado. Em vez de depender de grandes ficheiros JSON, a nova abordagem regressa a uma estrutura baseada sobretudo em HTML, complementada pela linguagem de modelos Liquid da Shopify.

Esta mudança representa mais do que uma decisão técnica. É também uma resposta à crescente utilização de agentes de inteligência artificial na criação e edição de lojas online. A conclusão da Shopify é particularmente relevante para qualquer organização envolvida em desenvolvimento digital: o código que é fácil de interpretar por uma pessoa tende também a ser mais fácil de utilizar por uma inteligência artificial.

O regresso à legibilidade do código

O novo tema-base ainda não recebeu uma designação definitiva, mas já está a ser apresentado à comunidade de programadores como uma alternativa mais simples ao Horizon. Segundo a Shopify, a nova estrutura contém menos 93% de linhas de código do que o tema atual, tornando os ficheiros mais pequenos, claros e fáceis de analisar.

Ao abrir o diretório de modelos, comerciantes e programadores passam a encontrar ficheiros de texto com HTML e instruções Liquid facilmente identificáveis. Em vez de navegar por longas sequências de configurações serializadas, é possível perceber a estrutura de uma página através da leitura direta do código.

Esta diferença é importante porque reduz a distância entre aquilo que aparece no editor visual e aquilo que existe no código-fonte. Uma página deixa de ser apenas o resultado automático de inúmeras opções guardadas num ficheiro de configuração e volta a apresentar-se como um documento que pode ser lido, compreendido e adaptado.

Para empresas que dependem da personalização contínua das suas lojas, esta mudança pode traduzir-se numa manutenção mais eficiente e numa redução do risco técnico. Uma arquitetura legível facilita o trabalho de equipas internas, parceiros tecnológicos e serviços especializados em desenvolvimento de soluções Shopify Plus.

Como a personalização criou complexidade

Nos primeiros anos da Shopify, os temas eram relativamente simples. Mesmo alguém com conhecimentos básicos de desenvolvimento web conseguia abrir um modelo, identificar os principais elementos e efetuar pequenas alterações. Com o crescimento da plataforma, surgiram novas opções de personalização, blocos configuráveis e ferramentas visuais capazes de controlar praticamente todos os componentes de uma página.

Esta evolução permitiu que comerciantes sem experiência técnica assumissem um papel mais ativo na construção das suas lojas. Cores, botões, secções, imagens, tipografia e disposição dos conteúdos passaram a ser controlados através do editor da plataforma.

No entanto, cada nova possibilidade exigia mais definições e mais configurações. Os modelos começaram a depender de ficheiros JSON que descreviam a posição, o comportamento e as propriedades de cada bloco. Embora este sistema oferecesse uma grande flexibilidade, também dificultava a leitura do código e obrigava os programadores a consultar vários ficheiros para compreender uma única página.

A complexidade não surgiu por o JSON ser uma tecnologia inadequada, mas porque as configurações passaram a representar demasiadas decisões, regras e dependências.

O resultado foi uma experiência eficiente para o editor visual, mas menos intuitiva para quem precisava de desenvolver, diagnosticar ou otimizar o tema. O código deixou de funcionar como uma superfície de trabalho clara e passou a comportar-se como um resultado automático produzido pelo sistema.

A influência do Shopify Sidekick

A adoção do Shopify Sidekick acelerou a necessidade de rever esta arquitetura. O assistente de inteligência artificial permite que os comerciantes descrevam em linguagem natural as alterações que pretendem realizar. Em vez de procurar um código de cor ou modificar manualmente uma configuração, o utilizador pode pedir ao sistema para mudar o fundo de uma secção, acrescentar um botão ou reorganizar determinados conteúdos.

De acordo com os dados divulgados pela empresa, cerca de 20% dos comerciantes Shopify já utilizam o Sidekick para editar temas, sendo responsáveis por aproximadamente 25 milhões de alterações num único ano. Esta utilização em escala obrigou a Shopify a pensar não apenas na experiência humana, mas também na forma como os modelos de inteligência artificial interpretam e modificam uma loja.

Os agentes de IA beneficiam de código com as mesmas características valorizadas pelos programadores:

  • Estruturas fáceis de ler e interpretar.
  • Contratos explícitos entre componentes.
  • Regras consistentes de validação.
  • Mensagens de erro e feedback úteis.
  • Menos dependências escondidas entre ficheiros.

Esta constatação está a influenciar a forma como as plataformas digitais são construídas. Em vez de criar uma camada adicional exclusivamente para a inteligência artificial, a Shopify optou por melhorar a própria base tecnológica. Ao tornar o código mais simples para os agentes, tornou-o simultaneamente mais acessível para programadores, comerciantes e equipas de manutenção.

HTML e Liquid como linguagem comum

A escolha do HTML não é acidental. Os principais modelos de inteligência artificial já foram treinados com grandes quantidades de código web e reconhecem facilmente a relação entre elementos, atributos e conteúdos. O HTML é expressivo, utiliza uma estrutura local e exige relativamente poucos tokens para descrever uma interface.

A linguagem Liquid complementa esta base ao permitir a inclusão de lógica, dados e componentes dinâmicos. Na nova arquitetura, a Shopify introduziu uma sintaxe renovada, um novo analisador e mecanismos mais rigorosos para executar instruções no servidor.

Para o utilizador, estas alterações traduzem-se em blocos compostos e tipificados que podem coexistir diretamente com HTML. Cada componente pode receber valores, configurações, substituições e outras instruções sem obrigar o programador a reconstruir toda a página.

Os novos parâmetros desempenham uma função semelhante às propriedades utilizadas em bibliotecas como React, mas sem exigir a criação de um DOM virtual. A Shopify acrescentou também um mecanismo de atualização parcial que permite alterar uma região específica da página sem voltar a processar todo o conteúdo.

Esta abordagem pode melhorar o desempenho da loja, simplificar a manutenção e reduzir a quantidade de JavaScript necessária. Para garantir que estas vantagens produzem resultados reais, a arquitetura deve ser acompanhada por práticas consistentes de SEO técnico, desempenho, acessibilidade e qualidade de código.

Menos código reativo, mais ações normalizadas

Outra novidade importante é a introdução de ações normalizadas. Estas ações representam acontecimentos frequentes numa loja online, como atualizar o carrinho, alterar uma variante de produto ou reagir a uma interação do utilizador.

Ao fornecer uma forma consistente de tratar estes eventos, a Shopify espera eliminar milhares de linhas de código reativo atualmente presentes no Horizon. Em vez de cada tema implementar a sua própria lógica, os programadores poderão recorrer a mecanismos comuns, documentados e previsíveis.

A empresa criou igualmente cerca de 20 novas regras para verificar se os temas gerados cumprem os requisitos definidos para contratos, estrutura, validação, complexidade, profundidade de elementos e dimensão dos ficheiros. Esta validação é especialmente importante quando parte do código é criada ou alterada por inteligência artificial.

Um agente pode produzir rapidamente uma solução funcional, mas essa solução precisa de respeitar limites técnicos e práticas de qualidade. Regras automáticas ajudam a impedir que uma alteração aparentemente simples introduza problemas de desempenho, segurança ou manutenção.

Uma arquitetura declarativa nem sempre é mais simples

As arquiteturas orientadas por configurações são úteis quando todas as possibilidades podem ser previstas antecipadamente. O problema surge quando o utilizador precisa de fazer algo que não estava contemplado no conjunto inicial de opções.

Imagine-se uma secção configurada para apresentar dois botões. Numa arquitetura exclusivamente baseada em definições, o programador precisa de decidir antecipadamente quantos botões serão suportados, quais os campos disponíveis e como serão organizados. Se o comerciante pretender adicionar um terceiro botão, pode ser necessário alterar o esquema da secção.

Com HTML, essa necessidade pode ser resolvida de forma mais natural. Os botões podem ser agrupados num elemento e novos componentes podem ser acrescentados sem alterar toda a estrutura de configuração. Esta liberdade controlada aproxima o desenvolvimento da forma como as páginas web foram originalmente concebidas.

Isso não significa abandonar componentes, sistemas visuais ou editores. Significa encontrar um equilíbrio entre personalização e clareza, garantindo que a plataforma continua acessível sem esconder completamente a sua estrutura técnica.

O que esta mudança ensina às empresas

A nova direção da Shopify demonstra que a preparação para a inteligência artificial não depende apenas da adoção de novas ferramentas. Também exige rever sistemas, processos e arquiteturas que foram acumulando complexidade ao longo do tempo.

Empresas que pretendam integrar agentes de IA nos seus canais digitais devem começar por avaliar a qualidade da base tecnológica. Código fragmentado, documentação incompleta, contratos implícitos e comportamentos inconsistentes dificultam tanto o trabalho humano como a automatização.

Uma auditoria à arquitetura pode ajudar a identificar componentes redundantes, ficheiros excessivamente complexos, dependências desnecessárias e oportunidades de normalização. Este trabalho pode ser enquadrado numa análise mais abrangente da infraestrutura web, relacionando desempenho, escalabilidade, segurança e capacidade de evolução.

Os principais benefícios de uma abordagem orientada para a legibilidade incluem:

  1. Maior rapidez na implementação de alterações.
  2. Menor dependência de conhecimento técnico concentrado numa única pessoa.
  3. Redução de erros introduzidos por automações ou agentes de IA.
  4. Integração mais simples entre equipas de design, conteúdo e desenvolvimento.
  5. Melhor capacidade de testar, validar e documentar cada componente.

O futuro do código pode ser mais humano

Durante vários anos, a indústria tecnológica procurou reduzir a quantidade de texto e tornar os formatos de dados cada vez mais compactos. O JSON ganhou espaço em muitos contextos por ser menos verboso do que o XML, enquanto linguagens específicas tentaram representar processos complexos através de sintaxes reduzidas.

A expansão da inteligência artificial está agora a desafiar essa tendência. Os modelos de linguagem foram treinados para interpretar relações semânticas, instruções descritivas e estruturas semelhantes à comunicação humana. Por essa razão, formatos mais explícitos podem produzir resultados superiores aos de linguagens excessivamente condensadas.

A experiência da Shopify sugere que o melhor código para a IA não precisa de ser artificialmente adaptado às máquinas. Pode simplesmente ser bom código: claro, previsível, bem documentado e organizado de acordo com responsabilidades fáceis de identificar.

Ao regressar ao HTML e reforçar o Liquid com componentes, contratos e validações, a Shopify não está a rejeitar a inovação. Está a reconhecer que a inovação sustentável depende de bases compreensíveis.

Para comerciantes e marcas, esta mudança poderá facilitar a criação de experiências digitais mais personalizadas, sem transformar cada alteração num projeto técnico complexo. Para os programadores, representa a possibilidade de voltar a compreender uma página através da leitura do respetivo código. E para os agentes de inteligência artificial, oferece um ambiente mais seguro e eficiente para executar instruções.

No final, a principal conclusão é simples: quando uma arquitetura é concebida para ser compreendida, todos trabalham melhor - pessoas, equipas e máquinas.

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